As comemorações dos quase dois séculos de chegada dos imigrantes germânicos que fundaram na região a primeira colônia de SC e a segunda do país têm auge

neste sábado, com a Bier Fes. 

Foi preciso muita fé, coragem, determinação e vontade de recomeçar para que um grupo de alemães deixasse sua terra natal e conseguisse fazer a travessia do oceano Atlântico para chegar ao Brasil e também na então bucólica e pacata Ilha de Desterro. A maioria dos imigrantes chegou à capital da província de Santa Catarina doente, faminta e em condições insalubres após a longa jornada de cerca de 90 dias em meio às mais diversas condições do mar, entre 7 e 12 de novembro de 1828.

Lá se vão 191 anos. E para marcar estes quase dois séculos da chegada dos imigrantes alemães na cidade, nesta semana a Fundação Franklin Cascaes promoveu uma programação diversificada em Florianópolis. As atrações culminam neste sábado (9) com a 4ª Bier Fest, promovida pela Associação Deutsche Welt, que vem se dedicando a resgatar a memória das primeiras famílias a se estabelecerem na região.

Em busca da promessa feita pelo Império do Brasil, por meio de Dom João 6º, de que aqui encontrariam terras, dinheiro, despesas de viagem pagas, entre outros benefícios, os alemães atracaram primeiro no Rio de Janeiro, sempre a primeira parada da rota ao chegar no Brasil. O primeiro navio que saiu de lá e chegou à capital da província de Santa Catarina foi o Brigue Luiza, que transportava 276 passageiros. A outra embarcação era o Bergantim Marquez de Vianna, com 359 pessoas.

No tradicional chapéu de feltro, os bótons com símbolos de cidades e estados alemães e suas oktoberfests | Foto Flávio Tin/ND

Para o Brasil Imperial, a vinda dos alemães era interessante por vários motivos, aponta o historiador Fábio Garcia: como o país sofria muitas invasões estrangeiras, pois para cá vinham espanhóis, holandeses, entre outros, os alemães vieram para reforçar as tropas e defender a nação. Além disso, as famílias ocuparam áreas estratégicas para a monarquia, espaços que eram habitados por índios, e que passariam a produzir culturas e rendimentos para os colonos e também para os governos estadual e federal.

De acordo com Jeanine Rauh Probst Hantschel, diretora de Eventos e Social da Associação Cultural Deutsche Welt, de Florianópolis, já na Ilha de Santa Catarina os imigrantes se concentraram em dois pontos da cidade – uma parte ficou alojada no Campo do Manejo, terreno que abriga hoje o IEE (Instituto Estadual de Educação). Outro grupo ficou aportado na Armação da Lagoinha, localizada na costa sudeste da Ilha.

“Na Capital, passaram cerca de quatro meses, período no qual se curaram das enfermidades contraídas durante a viagem, mas também ficaram ociosos, sem produzir e sem o pagamento de uma diária que lhes fora oferecida”, conta. Eram agricultores, ferreiros, carpinteiros, artesãos e soldados, em geral muito pobres, que chegaram ávidos por cultivar suas terras e trouxeram até sementes nos pertences carregados por todo o percurso.

Rebelião e a terra prometida

Cansado de esperar por uma solução e encaminhamento para um local para estabelecer-se enquanto estavam em Desterro, um grupo de 25 líderes de imigrantes alemães fez um abaixo-assinado e exigiu do governo do Estado o cumprimento das promessas que recebeu ainda em terras germânicas.

Sem o esperado respaldo financeiro do Império, alguns deles pegaram suas ferramentas, reuniram os familiares e saíram em direção ao Campo de Lages, já que os imigrantes deveriam se alojar em uma área entre Desterro e a estrada para o território lageano. Os mais abastados ficaram pela Capital, mas a maioria, pobre, se arriscou na nova jornada, dessa vez por terra.

Na empreitada, alguns ficaram por São José e cerca de 50 famílias chegaram até onde hoje é o município de São Pedro de Alcântara. A data de 1º de março de 1829 marca oficialmente a fundação da primeira colônia germânica no Estado e a segunda do país, no local.

Não foi um início fácil. Quando tudo parecia resolvido, no entanto, muitas dificuldades começaram a brotar na terra prometida, que apesar de muito sonhada e esperada, não era nada produtiva. Mesmo assim, a maioria decidiu permanecer e enfrentar todos os obstáculos que surgiram ao longo do tempo, entre os quais as constantes cheias do rio Maruim.

Imagem centenária de São Pedro de Alcântara, a primeira colônia germânica catarinense – Foto: Instituto Carl Hoepcke/Divulgação/ND

Sem apoio das autoridades da época, passaram a se virar e produzir comida tanto para a sua subsistência, como para o comércio, em especial cana-de-açúcar, legumes, feijão, batata, milho, mandioca, entre outros.

Apenas uma pequena parte do grupo que chegou por ali seguiu viagem. Alguns imigrantes se estabeleceram em outras regiões, como Rancho Queimado, Antônio Carlos, Santo Amaro da Imperatriz e poucos chegaram até Lages, conta Jeanine.

No princípio, São Pedro de Alcântara pertencia a Desterro, mas passou para o território de São José quando o então distrito se separou de Florianópolis, em 1833, alçado à categoria de município. A vila só passou a ser município em abril de 1994, por meio da lei 9.534, de 16 de abril de 1994.

Cultura na Capital não é tão forte quanto no interior

Apesar de os alemães atracarem primeiro em Desterro e grandes famílias terem se estabelecido, a cultura alemã não foi muito difundida na cidade, a exemplo de outros municípios do Norte-Nordeste e Vale catarinense, como Joinville, Jaraguá do Sul, Pomerode e Blumenau, onde a origem germânica é constantemente exaltada e inspiração para as tradicionais festas de chope.

De acordo com o historiador Aderbal João Philippi, na década de 1870, a colônia alemã na Capital de Santa Catarina era grande e poderosa, com o estabelecimento de famílias como Hoepcke, Koerich, Busch, que criaram raízes e fizeram história na política e no empresariado local.

Nos últimos anos, no entanto, há um resgate das raízes germânicas na cidade. “De uns 50 anos para cá, as famílias começaram a escrever as suas memórias e os frutos dessa busca começaram a aparecer”, afirma Philippi.

Jeanine Hantschel reforça que tudo começou a mudar há cinco anos, quando a Associação Cultural Deutsche  Welt  recebeu um convite da Prefeitura de Florianópolis, ao lado de outras etnias, para participar de um evento. Desde então, os laços se estreitaram por meio da Fundação Franklin Cascaes, que convida frequentemente o grupo para danças folclóricas e muitos outros eventos na Capital.

O casal Silvio Roberto Hantschel. ele presidente da Associação Cultural Deutsche Welt/Florianópolis e Jeanine Rauh Probst Hantschel, diretora de Eventos e Social, com a rainha da 20ª Deutsches Fest, Ingrid Scherer – Foto Flavio Tin/ND

Ela e o marido trazem nas veias o sangue germânico. O pai dela é de Rio do Sul, a mãe, de Indaial. Seu avô, Marcus Rauh, foi prefeito de Indaial. Ela vem de uma família musical. A avó tocava piano, um primo da mãe, bandoneón; o tio, violino, a mãe e tia, flauta, a outra tia, piano a quatro mãos com a avó. Em todas as festas era aquela cantoria com o típico sotaque.

O marido dela, Silvio Roberto Hantschel.presidente da associação, é descendente dos alemães que subiram a serra Dona Francisca. O trisavô dele é um dos fundadores de São Bento do Sul. Outra parte da família fundou Rio Negrinho. Os dois vieram estudar na Capital e se conheceram no grupo de jovens da Igreja Luterana. Em comum, as famílias gostam de se reunir em fartos almoços e cafés com música.

“Nós sempre estivemos aqui, mas quem não é visto, não é notado. E nós passamos a ser notados. Isso é muito gratificante. A nossa entidade é de Florianópolis e antes percorríamos o Estado para participar de eventos, festas da colheita no Oeste, além da Oktoberfest, de Blumenau; Oktobertanz. de São Pedro. Hoje, tenho a satisfação de participar dos eventos na nossa cidade. Isso é muito bom”, afirma.

Programação comemora saga

Roseli Pereira, superintendente da Fundação Franklin Cascaes, destaca a importância da cultura germânica para a cidade. “O Estado de Santa Catarina é um mosaico com sua diversidade ética e cultural. E em Florianópolis a cultura alemã marca sua presença há 191 anos, trazendo a sua gastronomia, sua arte e sua força de trabalho. Aqui se estabeleceram famílias que ajudaram a cidade a crescer e se desenvolver economicamente”, afirma.

Entre as atrações para comemorar os 191 anos de imigração, a Associação Deutsche Welt convida para a 4ª Bier Fest. A festa terá vários tipos de chopes artesanais, atração musical com a banda Freunde Musikanten, de Blumenau, apresentações do grupo de danças folclóricas Tanzfreunde, competições de chope em metro, de serrador, além de cardápio variado da gastronomia germânica, com strudel, cucas, bolos e pratos salgados.

Strudel, um dos mais tradicionais pratos da cultura germânica – Foto Flavio Tin/ND

Serviço:

O quê: Bier Fest na Associação Cultural Deutsche Welt

Quando: sábado (9), das 11h30 às 18h

Local: Acojar (Associação Comunitária Jardim Santa Mônica), rua Coronel Maurício Spalding de Souza, 801, bairro Santa Mônica, Florianópolis

Quanto: entrada gratuita

PATRICIA PERON, ESPECIAL PARA A INSPIRA!, FLORIANÓPOLIS