Pelo menos sete pessoas morreram durante protestos contra o ditador do SudãoOmar al-Bashir, no último fim de semanainformou o ministro do Interior, Bishara Jumaa. Em comunicado ao Parlamento local, o ministro ainda disse que outros 15 civis e 42 membros das forças de segurança ficaram feridos nos protestos. Foram presos 2.496 manifestantes.

A onda de protestos no Sudão começou no dia 19 de dezembro do ano passado, quando o governo decidiu triplicar o preço do pão. O reajuste inesperado logo evoluiu para um movimento nacional pedindo a renúncia do presidente, Omar al-Bashir, que tomou o poder com um golpe militar em 1989.

Segundo Jumaa, seis das vítimas estavam na capital sudanesa, Cartum, e uma outra, no Darfur, cidade próxima da fronteira com a Líbia.

Nesta segunda-feira, 8, as forças do Serviço Nacional de Inteligência e Segurança (NISS)tentaram dispersar os manifestantes na capital, que acampam há mais de 48 horas em frente à sede do Exército, usando gás lacrimogênio e cassetetes. Soldados do Exército intervieram para evitar o ataque contra os civis.

“As unidades militares protegeram os que participavam da manifestação, depois da intervenção das forças de segurança para dispersar o protesto pela força”, disse o ativista Ali Ibrahim, membro da Associação de Profissionais do Sudão, um sindicato opositor que lidera as manifestações.

Segundo Ibrahim, mais de 50 mil manifestantes estão concentrados em frente à sede do Exército. O ativista afirmou que a população só vai deixar o local “depois que Al Bashir renunciar e formar um governo transitório que leve o país a uma nova etapa”.

Nas últimas semanas, as movimentações pareciam ter diminuído, principalmente depois que o governo declarou estado de emergência no país, intensificando a repressão aos oposicionistas. Mas no sábado 6, milhares de pessoas tomaram o centro de Cartum para novos protestos.

Na madrugada de domingo para segunda, foram relatadas trocas de tiros entre as unidades militares que protegiam o acampamento e forças de segurança, sugerindo uma divisão entre facções de elite.

A Associação de Profissionais Sudaneses, parte de uma coalizão de grupos civis envolvidos nos protestos, disse em comunicado no domingo que temia um massacre ,caso as forças do governo tentassem dispersar o ato.

“Nós pedimos que todos os países, agentes internacionais, organizações de direitos humanos e a Organização das Nações Unidas (ONU) monitorem de perto a situação no Sudão”.

Segundo autoridades, 32 pessoas morreram desde dezembro por causa da repressão violenta aos protestos. O Human Rights Watch (HRW) registrou 51 vítimas entre dezembro e o fim de janeiro.

Um relatório publicado na última semana pela organização não governamental americana Médicos pelos Direitos Humanos (PHR) afirmou que as autoridades “usaram força desproporcional e desnecessária contra seus cidadãos, atacaram ilegalmente instalações médicas e torturaram detentos”.

Relação com bin Laden

As manifestações no Sudão se assemelham às da Primavera Árabe, em 2011, quando a população do Cairo e de outras capitais árabes acamparam em praças públicas e, por dias, protestaram em favor de reformas.

O jornal britânico The Guardian relatou que muitos dos sudaneses também se disseram inspirados pela situação da Argélia, em que semanas de atos pacíficos levaram à renúncia de Abdel Aziz Bouteflika, presidente desde 1999.  

O complexo militar cercado pela população neste final de semana abriga as residências oficiais do Ministério da Defesa e da Presidência. O presidente Bashir, de 75 anos, enfrenta acusações de genocídio no Tribunal penal Internacional, em Haia, relacionadas aos abusos cometidos contra civis de Darfur. A região está em guerra desde 2003, quando rebeldes começaram uma luta armada contra o governo, acusando-o de discriminação e negligência.

A ONU diz que pelo menos 300.000 pessoas já morreram no conflito no Darfur e outras 2,7 milhões já tiveram de fugir de suas casas. O ditador sudanês também já foi muito criticado por recepcionar terroristas conhecidos, como Osama bin Laden, mas mantém boas relações com líderes de toda a África e vem intensificando seu contato com a União Europeia, majoritariamente por preocupações com a imigração para o continente.

Em outubro de 2017, os Estados Unidos também afrouxaram as sanções contra o Sudão, afirmando que o país estava tornando sua relação com os direitos humanos mais transparente. A decisão foi condenada por organizações humanitárias.

(Com EFE e Reuters)