Eles venderam a casa que tinham aqui para se aventurar em solo americano e contaram como foi usar tornozeleiras eletrônicas, lidar com agentes de imigração e se adaptar à vida no país.

A vida de Gernúbia nos Estados Unidos não foi exatamente como imaginava. Quando deixou o Brasil com o marido e os três filhos há cerca de dois anos, o casal queria um futuro melhor para as crianças. Mas a maior parte do tempo lá, conta a moça, de 26 anos, “foi de sofrimento”. Ela chegou de volta ao Brasil (veja vídeo) nesta quinta-feira (6). O marido, Alemão*, foi deportado há cerca de duas semanas, depois de ficar preso por três meses. A família, que viveu sem visto no país, não pode voltar aos EUA por 10 anos.

Em Minas Gerais, onde o casal morava antes de ir embora, a vida era estável, ainda que simples. Eles tinham casa e carro próprios — tudo tranquilo, nas palavras de Gernúbia. Por desejo do marido, venderam tudo o que tinham e pagaram um coiote para chegar aos EUA. Pegaram um voo até o México e, lá, viajaram por 3 dias, de ônibus, até Ciudad Juárez, na fronteira americana. No limite entre os dois países, a família se separou: o marido atravessou primeiro, e, cerca de um mês depois, Gernúbia passou. Os dois disseram aos agentes de imigração que deviam dinheiro a agiotas e que não poderiam voltar para o Brasil. Não era verdade.

Gernúbia, de 26 anos, viveu com a família nos EUA por dois anos sem visto. — Foto: Marcelo Brandt/G1

“Todo mundo que vem pra cá inventa. Na hora eles não pediram prova, a gente tinha que provar depois”, diz a moça. Depois de entrar, eles tinham um ano para conseguir um advogado e dar prosseguimento à solicitação de asilo no país, mas não continuaram com o processo. Para conseguir a proteção, é preciso ter sofrido perseguição por pertencer a uma raça, religião, nacionalidade, grupo social ou ter uma opinião política específica, segundo a imigração americana. Os EUA consideram como pedidos de asilo aqueles feitos dentro do território americano ou nos pontos de entrada, mas os dados sobre a quantidade de pedidos de asilo feitos por brasileiros não são públicos, segundo o Departamento de Imigração.

Quando os casos são julgados, poucos recebem um “sim” como resposta. Entre 2017 e 2018 (ano fiscal), das 412 decisões judiciais emitidas sobre pedidos de asilo de brasileiros ao governo americano, apenas 22 concediam a proteção, segundo dados Departamento de Justiça. Nos dois anos anteriores a esse período, só 99 dos quase 73 mil pedidos de asilo atendidos pelo país eram de alguém do Brasil. O número corresponde a 0,001%.

Documento que autorizava Gernúbia a embarcar de volta para o Brasil. — Foto: Arquivo pessoal

O ‘sonho’ americano

A própria Gernúbia poderia ficar nos EUA até outubro, mas decidiu voltar por causa de Alemão. Ela afirma que nunca gostou de morar lá, mas teme que os filhos — de 10, 8 e 3 anos — percam a fluência no inglês. “Eles não queriam voltar de jeito nenhum, mas eu não via a hora de ir embora. Quando chegamos nos EUA, foi do jeito que eu estava imaginando, que não ia gostar. Odeio esse lugar”, diz. O casal morava em Newark, no estado de Nova Jersey, em um bairro com grande quantidade de imigrantes hispânicos, brasileiros e portugueses. Logo que chegaram, ela e o marido precisaram usar tornozeleiras eletrônicas por três meses (veja vídeo) e receber visitas de agentes de imigração, em casa, todas as segundas-feiras.

“Não podia sair de casa na segunda-feira de jeito nenhum. A tornozeleira, quando descarregava, apitava, e uma voz falava ‘bateria baixa, bateria baixa.’ Todo mundo olhava para a gente. No começo, até adaptar, é horrível”, conta Gernúbia. Mesmo assim, a família criou uma rotina: as crianças foram matriculadas na escola e Alemão conseguiu um emprego, como operador de escavadeira, que lhe dava uma renda mensal de US$ 7,5 mil (cerca de R$ 29 mil), segundo relatou ao G1. “Mas a vida não era fácil. É complicado porque a gente é imigrante, não tem muita possibilidade para fazer as coisas. Nunca levei meus filhos no hospital, porque é muito caro. E é ruim demais no frio, a gente não aguenta”, diz Gernúbia.

Gernúbia, de 26 anos, viveu com a família nos EUA por dois anos sem visto. — Foto: Marcelo Brandt/G1

“Morre mendigo direto na rua. Eles pensam que lá nos Estados Unidos não tem mendigo; é o que mais tem. Se você for em Nova York, você vê um monte lá deitado, lá fora. É triste”, conta a moça. A família viajou um pouco: além de Nova York, foram para Boston e Maryland. Gernúbia chegou a trabalhar por três dias em um supermercado, mas, depois de um incidente com a babá que tomava conta do filho pequeno, ficou traumatizada e desistiu de procurar emprego. A rotina, então, passou a ficar entre a casa e o trabalho. “A gente não aproveita a vida, não tem lazer aqui. O custo de vida é muito alto”, relatou ao G1, pouco antes de voltar ao Brasil.

Gernúbia, de 26 anos, viveu com a família nos EUA por dois anos sem visto. — Foto: Marcelo Brandt/G1

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Na percepção de Solange Paizante, que lidera a ONG Mantena Care, em Newark, aumentou, desde o começo deste ano, o número de brasileiros que chegaram à cidade de forma clandestina. A maioria, diz a brasileira, que está nos EUA há 15 anos, tem baixo nível sociocultural. A organização promove serviços de saúde, lazer e educação para brasileiros. “Estou assustada — pelo fato de como as pessoas estão vindo e às vezes não têm ideia de como é a travessia: vem um pai com uma criança, vem a mãe com a outra criança. Vem um tio como se a criança fosse filha dele. Uma família não sabia nem que falava inglês aqui”, diz Solange. A brasileira acredita que o projeto do presidente Donald Trump de construir um muro na fronteira com o México pode ter contribuído para mais pessoas buscarem a travessia. “É agora ou nunca, eles brincam com isso”. Entre os anos fiscais de 2017 e 2018, mais de 3 mil brasileiros foram deportados dos Estados Unidos, segundo dados mais recentes da imigração (veja gráfico).

Gernúbia, de 26 anos, viveu com a família nos EUA por dois anos sem visto. — Foto: Marcelo Brandt/G1

Recomeço

Quando chegou ao aeroporto de Guarulhos nesta quinta-feira (6), Gernúbia tinha poucos planos: comer carne assada, tomar uma cerveja, e ver o marido. Quer ir a Belo Horizonte, à sua cidade natal, em Minas Gerais, e talvez tente conhecer São Paulo. Ela sente falta dos amigos que deixou nos EUA e lamenta o fato de ter ido embora durante o verão, mas não acha que voltará para lá. A família também não sabe em que cidade irá morar — depende de onde Alemão conseguir emprego. O marido diz que não se arrepende da empreitada, apesar de achar injusta a forma como foi tratado pela imigração americana. “A gente viveu o melhor que pôde viver lá e agora a vida segue”, diz Alemão, que tem 43 anos, enquanto segura o filho no colo. “Do mesmo jeito que eu comecei uma vida lá, eu começo de novo aqui. Saúde é o que eu tenho, e minha família está comigo. É o mais importante”, diz. *O sobrenome da entrevistada e o nome do entrevistado foram omitidos a pedido do casal. // FONTE: G1.