Não parece ser a melhor estratégica para passar despercebido, mas alguma espécies de tubarões que deslizam nas profundezas dos mares emitem um resplendor

de cor verde visível por seus semelhantes.

Cientistas anunciaram nesta quinta-feira (8) ter identificado as moléculas responsáveis pela biofluorescência destes predadores marinhos e que têm indícios de que este brilho possa cumprir outras funções, como combater infecções microbianas.

A pesquisa foi publicada na revista iScience e aponta para uma família anteriormente desconhecida de metabólitos de molécula pequena como causadora do brilho.

"É muito diferente de todas as outras formas de biofluorescência marinha", como a que se encontra em medusas e corais, disse à AFP o coautor do estudo David Gruber, professor da City University de Nova York.

"Esta é uma pequena molécula ao invés de uma proteína e mostra que no oceano azul, os animais estão desenvolvendo de forma independente sua aptidão para absorver luz azul e transformá-la em outras cores".

A publicação se concentrou em duas espécies, o tubarão-inchado (Cephaloscyllium ventriosum) e o cação-cadeia (Scyliorhinus retifer), que Gruber estudou em expedições de mergulho em Scripps Canyon, um cânion submarino em frente à costa de San Diego.

Imagem registrada em 2015 pelo professor David Gruber, da City University de Nova York, mostra um cação-cadeia florescente perto da costa de San Diego, Califórnia

© David GRUBER Imagem registrada em 2015 pelo professor David Gruber, da City University de Nova York, mostra um cação-cadeia florescente perto da costa de San Diego, Califórnia

Tanto o tubarão-inchado quanto o cação-cadeia são mais tímidos que os midiáticos tubarões-brancos ou tubarões-tigre.

"Têm cerca de um metro de comprimento, encostam no fundo, são muito envergonhados e não são nada bons nadadores", disse Gruber.

Onde vivem, a 30 metros de profundidade ou mais, só a luz no extremo azul do espectro consegue chegar, e por isso se mordessem alguma presa, o sangue ao invés de vermelho pareceria preto como tinta.

- 'Superpoderes fascinantes' -

Gruber e seu colega, Jason Crawford, da Universidade de Yale, notaram que a pele dos tubarões tinha dois tons, um claro e outro escuro, e depois de estudá-la quimicamente, descobriram uma molécula que só estava presente nas porções de tonalidade clara e que é capaz de absorver luz azul e emiti-la na cor verde.

A configuração dos olhos destes tubarões os torna especialmente sensíveis à luz no ponto de contato entre o azul e o verde, razão pela qual percebem um alto contraste entre a fluorescência de seu corpo ou a de seus pares e do entorno.

"Têm uma visão do mundo completamente diferente", explicou Crawford em um comunicado.

Durante suas expedições submarinas, Gruber descobriu que os tubarões estavam sempre em grupos, duplas ou até em cardumes com dez indivíduos, o que significa que são animais gregários.

Uma das possíveis interpretações da utilidade destas marcas é que ajudam a diferenciar o sexo ou inclusive a identificá-los individualmente.

Alguns dos metabólitos encontrados na pele dos tubarões eliminaram bactérias em laboratório, o que sugere que poderiam ter também um efeito antimicrobiano.

Para Gruber, as descobertas recentes relacionadas aos tubarões deixam em evidência o pouco que se conhece sobre estes animais, que se estima que existam há 400 milhões de anos.

"Realmente, não temos um entendimento sólido sobre a biologia dos tubarões. E são simplesmente criaturas assombrosas, com todo tipo de superpoderes fascinantes, (de) um sentido incrível do olfato até as ampolas de Lorenzini, que lhes permitem sentir a eletricidade" e detectar a pulsação de presas ocultas na areia.

Sobre esta última descoberta, Gruber diz: "estes tubarões estão logo ali, perto do cais de San Diego, e no entanto, só agora descobrimos este mistério".

AFP