Mistério desvendado: a história da jovem Vera Linhares, nome de rua em Florianópolis

A vida de Verinha, como era carinhosamente chamada, foi marcada pela militância, pela dedicação, pela música, independência e por uma partida repentina

Mistério desvendado: a história da jovem Vera Linhares, nome de rua em Florianópolis
Rua Vera Linhares de Andrade, no bairro Córrego Grande – Foto: Anderson Coelho/ND

“A Vera era uma mulher à frente do seu tempo”. É assim que o fotógrafo Ronaldo de Andrade, de 69 anos, se refere à Vera Linhares de Andrade, com quem foi casado de agosto de 1972 até a morte dela, no dia 14 de junho de 1973, aos 23 anos.

Retrato de Vera Linhares de Andrade – Foto: Anderson Coelho/ND

A história de Verinha, como era carinhosamente chamada, é marcada pela militância, pela dedicação, pela música, independência e por uma partida repentina.

Tais características fizeram, inclusive, com que Vera Linhares de Andrade se tornasse nome de rua da Capital de Santa Catarina.

A homenagem veio do projeto de lei municipal nº 2.695, de 1984, de autoria do vereador – e amigo – Sérgio Grando.

O trecho da estrada geral do Córrego Grande que ficou denominado como rua Vera Linhares de Andrade parte da rua Maestro Aldo Krieger até a SC-404, que leva ao bairro Lagoa da Conceição.

ND+ buscou descortinar a breve – mas intensa – trajetória da jovem estudante.

Leia também:

Família tradicional

A família Linhares é tradicional em Florianópolis. Vera tinha parentesco com Lauro Linhares, que dá nome à importante rua do bairro Trindade.

Lauro Linhares foi oficial da Guarda Nacional e esteve à frente da organização da Acif (Associação Comercial de Florianópolis), atuando como presidente em três gestões consecutivas nos anos de 1929, 1930 e 1931.

Também foi membro do Clube Doze de Agosto, sendo diretor da gestão 1919-1920. Nesse período, foi homenageado por sua contribuição para a biblioteca do clube.

O pai de Vera, Ivan Dêntice Linhares era coronel do Exército brasileiro e foi comandante do 14º Batalhão de Caçadores, no bairro Estreito. A mãe se chamava Gilda Linhares. Vera era a segunda de quatro filhos. Possuía uma irmã mais velha, Sônia, e dois irmãos mais novos, Luis Carlos e Luzia.

Em dado momento, a família Linhares trocou Florianópolis, por Lima, capital do Peru. Sônia, a irmã mais velha, mudou-se para o Rio de Janeiro. Vera, no entanto, permaneceu na Ilha.

Rua Coronel Ivan Dêntice Linhares

Assim como a filha e Lauro Linhares, Ivan Dêntice Linhares também se tornou nome de rua. A rua homônima fica localizada no bairro Coqueiros, entre o trecho que parte da rua São Cristovão, cruza a rua Fritz Muller e segue paralelo à rua Desembargador Pedro Silva.

Rua Coronel Ivan Dêntice Linhares, em Coqueiros – Foto: Reprodução/Google Maps/ND

O projeto de lei nº 1023, de 1971, foi de autoria do vereador Dr. João Otávio Furtado. Conforme o documento, coronel Ivan Linhares recebeu a homenagem, ainda em vida, por conta dos “serviços prestados à comunidade florianopolitana”.

Durante a gestão como comandante do 14º Batalhão de Caçadores, realizou a reformulação dos pavilhões, a construção do ginásio de esportes, o calçamento do pátio interno, entre outras ações.

Além disso, teria participado de diversas comissões com serviços no exterior. No início dos anos 1970, coronel Ivan Linhares atuava como adido militar no Peru, cargo exercido por um oficial das Forças Armadas, com representação diplomática.

A finalidade de um adido militar é trabalhar em estreita ligação com as autoridades militares do país.

Cenário hostil

Para jovens militantes, os primeiros anos da década de 1970, poderiam não ser o melhor cenário para uma história de amor.

O encontro entre Vera Linhares e Ronaldo de Andrade aconteceu sob a tensão dos “anos de chumbo”, período entre 1968 e 1974, quando houve maior repressão na Ditadura Civil-Militar, liderada pelo general Emílio Garrastazu Médici.

Ao viajar para Lima, Vera deu a Ronaldo uma fotografia com uma mensagem – Foto: Acervo pessoal/Ronaldo de Andrade/Anderson Coelho/ND

No fim do governo do general Artur da Costa e Silva, em dezembro de 1968, foi decretado o AI-5 (Ato Institucional Número Cinco) que resultou na perda de mandatos de parlamentares contrários aos militares e intervenções ordenadas pelo presidente nos municípios e Estados.

Além disso, também houve a suspensão de garantias constitucionais, o que levou à institucionalização da tortura, comumente usada como instrumento pelo Estado.

Movimento estudantil

Foi durante o movimento estudantil que os jovens Vera Linhares e Ronaldo de Andrade se conheceram. Os dois eram naturais de Florianópolis e alunos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

A jovem Verinha já morava sem a companhia dos pais, no edifício Cristiane, localizado na rua Ferreira Lima, ao lado da antiga Faculdade de Medicina. No prédio estudantil para mulheres funciona também a ACP (Associação Catarinense de Professores).

Edifício Christiane, onde morou Vera Linhares de Andrade – Foto: Bruna Stroisch/ND

Vera foi estudante do curso de Filosofia durante três anos, enquanto Ronaldo fez dois anos de Engenharia Elétrica. Com o objetivo de entender melhor o contexto político da época, os dois prestaram vestibular para Ciências Sociais na UFSC. Vera obteve o 1º lugar.

Além do gosto pelas Ciências Humanas, o jovem casal possuía outro ponto em comum: ambos eram filhos de militares. O pai de Ronaldo exercia o cargo de tenente do Exército brasileiro.

“Não tínhamos participação em movimentos de nível nacional e nem éramos filiados a partidos políticos, mas, havia um conflito entre a nossa ideologia e as ideias de nossos pais. Vera tinha uma visão de mundo diferente, enxergava o mundo de outra forma. Era a única militante da família”, conta Ronaldo.

Estudos e militância

A jovem estudante de Ciências Sociais foi presidente do Diretório Acadêmico Oito de Setembro e também uma das fundadoras do Cineclube Catarinense Estudantil.

No período de sua morte, exercia a vice-presidência de cultura do Daceb (Diretório Acadêmico do Centro de Estudos Básicos), onde organizou uma campanha de leitura e ampliou a Biblioteca Cultural.

Vera Linhares de Andrade (sentada, à esquerda) nos tempos de estudante – Foto: Acervo pessoal/Ronaldo de Andrade/Anderson Coelho/ND

De acordo com os documentos do projeto de lei, Vera também teria sido redatora do jornal acadêmico “O Cebiano”, censurado durante a Ditadura Civil-Militar, pelo tom esquerdista.

Embora envolvidos com o diretório acadêmico e com a UNE (União Nacional dos Estudantes), a militância do casal encontrava dificuldades.

“Era difícil, não conseguíamos fazer manifestações de massa. A gente distribuía panfletos, notas, tudo escondido, porque se ultrapassasse o limite, estava sujeito à repressão. Não sabíamos qual ia ser o nosso futuro. A gente vivia na luta do dia a dia, um dia após o outro”, relembra Ronaldo.

Em paralelo aos estudos e à militância, Vera começou a trabalhar cedo, na Federação Catarinense de Cultura, enquanto Ronaldo trabalhava no Instituto de Previdência do Estado.

Encontro com músico brasileiro

Cerca de um ano antes de sua morte, em 1972, Vera foi visitar os pais no Peru. Ronaldo conta que enquanto estava em Lima, Vera foi a um festival de música latinoamericana. Entre as atrações, estava o músico Geraldo Vandré, que, na época, vivia exilado na França.

“A Vera foi conhecer ele no camarim do festival. Foi uma encrenca, porque as pessoas começaram a comentar ‘como a filha de um coronel vai visitar um músico exilado?’”, disse Ronaldo.

Ronaldo de Andrade fala sobre os tempos de juventude com Vera – Foto: Anderson Coelho/ND

Segundo ele, Vera passou a ser vigiada. “Ela só foi visitá-lo no camarim porque gostava de música, mas a visita se tornou um conflito diplomático. No fim, o pai dela conseguiu contornar a situação”, conclui.

Paixão pela música

Verinha tinha uma forte ligação com a música. Gostava de Chico Buarque, tocava violão e compunha canções. Fez parte do Coral da UFSC e participou de dois festivais de música em Florianópolis e do 1º Concurso de Músicas Carnavalescas.

Vera Linhares de Andrade recebe prêmio em festival de música – Foto: Acervo pessoal/Ronaldo de Andrade/Anderson Coelho/ND

Uma de suas canções, chamada “Ano N” tirou segundo lugar no 1º FUCACA (Festival Universitário da Canção Catarinense). Na música há um trecho que diz:

“Escuta, há tempo eu andava querendo te falar/ Agora entendo o porquê da dispersão/ Não quero mais saber de me esconder/ De me extinguir em poesia/ Saturei melancolia/ Rasguei anos de papel/ Me descobri, rompi o véu/ Voltei meu rosto para frente/ Tanto amor latente, urgente/Está morrendo sem nascer!/ Há pressa que entendas o meu desabafo/ Muito tempo já foi gasto/Não é hora de esperar/ Amigo, há tanta coisa pra se ver/ pra se dizer e a gente cala/ Contribui para que haja falha/ De um novo amanhecer/ Quando haverá mesmo viver/ Sobe o degrau que está à frente/ E verás que de repente/ O universo vai mudar/ Quero lançar-te um desafio: Abre a mente, enche o vazio/ Sai de ti, vai transformar!”.

Pedido nas pedras de Itaguaçu

O pedido de casamento de Ronaldo para Vera veio com cerca de um ano de namoro e teve como palco as Pedras de Itaguaçu, na região de Coqueiros, em Florianópolis.

Pedras de Itaguaçu – Foto: Marco Santiago/ND

“Fomos tomar umas cachaças no bar das Pedras. Na época, a gente não tinha dinheiro para cerveja, era cachaça mesmo. Sentamos nas rochas, que hoje chamam de Bruxas de Itaguaçu, e perguntei: ‘quer casar comigo? ’ Foi assim, sem muita frescura!”, brinca Ronaldo.

Foi em agosto de 1972, que Vera Cercal Linhares passou a se chamar Vera Linhares de Andrade. Foram 10 meses de casados, até o dia em que ela morreu.

O ‘sim’

Membros de famílias católicas, porém, ateus, o matrimônio foi realizado somente no civil. A cerimônia simples reuniu amigos e alguns familiares na casa de um tio de Vera. Os pais dela não compareceram ao casamento, ao contrário dos pais de Ronaldo.

O casal Ronaldo e Vera durante a recepção do casamento – Foto: Acervo pessoal/Ronaldo de Andrade/Anderson Coelho/ND

De acordo com ele, o pai de Vera não aprovava a união. “Eu ainda não o conhecia. Ele estava desconfiado que ela estivesse grávida, achou que o casamento foi repentino”, disse o fotógrafo.

O jovem casal foi morar em um apartamento alugado no bairro Abraão, região continental de Florianópolis. Por meio de um consórcio, tinha planos de adquirir um imóvel no Edifício Itajubá, na avenida Mauro Ramos, no Centro.

Partida repentina

Vera sofreu um infarto fulminante aos 23 anos, no dia 14 de junho de 1973. Ela aguardava na sala de espera por uma consulta no dentista. Segundo Ronaldo, o consultório ficava em um centro comercial na rua Jerônimo Coelho.

A jovem era portadora de uma doença genética chamada Síndrome de Marfan. A síndrome se manifestava, mais visivelmente, por meio de características físicas.

O jovem casal Vera e Ronaldo – Foto: Acervo pessoal/Ronaldo de Andrade/Anderson Coelho/ND

Ronaldo conta que Vera era alta, com cerca de um metro e oitenta, magra e tinha os membros alongados.

Possuía, também, um sério problema de visão. A doença pode afetar, ainda, pulmões, esqueleto, vasos sanguíneos e o coração.

O fotógrafo explica que, na época, nem ele, nem os familiares, tinham conhecimento da dimensão da doença e das implicações cardíacas.

Segundo ele, Vera não fazia acompanhamento médico ou tomava medicamentos.

“Ela não apareceu na prova”

A notícia da morte da esposa veio após uma prova de uma disciplina que os dois cursavam juntos, na UFSC.

“Eu saí do meu trabalho e fui para a universidade. A gente costumava se encontrar à noite. Ela não apareceu para fazer a prova. Quando terminei, peguei o ônibus e fui para casa. Quando cheguei lá tinha um bilhete dizendo ‘a Vera passou mal e está no hospital. Venha para cá’”, conta.

O bilhete foi escrito por um amigo do casal, com quem dividia o apartamento no Abraão.

“Peguei o ônibus e minha família estava no hospital. Olhei assustado e perguntei o que tinha acontecido. Não me disseram que ela estava sendo tratada. Soube que tinha morrido. Ninguém conseguiu me explicar direito o porquê”, relembra Ronaldo, emocionado.

Uma nota de falecimento publicada na capa do jornal “O Estado”, no dia 15 de junho de 1973, comunicou a morte da jovem. Vera Linhares de Andrade morreu no Hospital Governador Celso Ramos.

Nota de falecimento publicada no jornal O Estado – Foto: Reprodução/Jornal O Estado/ND

Após a morte de Vera, os presidentes dos diretórios acadêmicos da UFSC decretaram luto oficial por três dias. Um ônibus foi disponibilizado para os estudantes acompanharem o enterro.

A despedida

Ronaldo de Andrade só conheceu os pais da esposa no dia do sepultamento dela no Cemitério São Francisco de Assis, no bairro Itacorubi. Era dia 16 de junho de 1973, cerca de dois anos depois do início do namoro.

Conforme Ronaldo, o encontro veio com um pedido de desculpas por parte dos pais de Verinha. Eles estariam arrependidos por não terem ido ao casamento da filha.

Ronaldo de Andrade – Foto: Anderson Coelho/ND

Aproximadamente dois meses depois do sepultamento, a família de Vera convidou o recém viúvo para visitar Lima. A viagem foi custeada pelo sogro.

“Ele quis que eu fosse conhecer o resto da família. Havia um irmão dela que eu também não conhecia. A viagem durou uns 15 dias. Depois disso, acabamos rompendo a relação em definitivo”, diz o fotógrafo.

Após a morte de Vera

Depois do breve casamento e a perda repentina da esposa, Ronaldo conta que terminou o curso de Ciências Sociais e se engajou ainda mais na luta política. Segundo ele, recomeçar foi difícil, pois estava acostumado a ter Vera ao seu lado.

Por volta de um ano depois da morte dela, o fotógrafo casou-se com a atual esposa. Ela era estudante do curso de Letras, na UFSC, e chegou a conhecer Vera Linhares de Andrade. Eles têm três filhos e moram há 36 anos no bairro Campeche, no Sul da Ilha.

Um trecho do poema lido no enterro de Verinha, de autoria de Tanira Piacentini, amiga do casal, diz: 

“Vera. Vera Linhares de Andrade. Um nome como outro. Para alguns talvez, mas não para muita gente. Vera amiga. Vera veracidade. Que acreditava num mundo melhor, onde todas as pessoas seriam iguais. Onde todas as pessoas teriam os mesmos direitos, onde todas as pessoas seriam irmãs.”

Logo - ND